terça-feira, 22 de setembro de 2009

Reprodução programada


Criador revela os segredos do fotoperiodismo, uma técnica que estimula a reprodução da ave.


Ele se chama Edison Amorim de Castro e é de Valinhos, no interior de SP, cidade na qual também mantém um criatório comercial de curiós, trinca-ferro e pintassilgo. E toda habilidade e conhecimento que tem com as aves as quais comercializa vem do exercício de sua profissão: a medicina veterinária.

No decorrer dos anos dedicado à saúde animal Dr. Edison acumulou grande experiência no trato das aves e se aprofundou na questão do fotoperiodismo, que trata a exposição da ave à luz para que haja o estímulo à reprodução.

E para esclarecer possíveis dúvidas sobre o assunto a equipe da revista Passarinheiros&cia conversou com o médico, que explicou passo a passo o processo. Acompanhe!

P&C – O que pode influenciar a reprodução de um passarinho na natureza?

EAA época de reprodução é basicamente influenciada pelo volume de luz que incide sobre a retina do pássaro. Os dias, que se tornam mais longos, na primavera e no verão, estimulam os pássaros à reprodução. Na natureza, a produção de sementes de insetos também estimula a reprodução. Juntos, dias mais longos e oferta de alimento também maior, são dois grandes estímulos.

Já em ambiente doméstico a oferta de alimento é constante, tendo em vista que o criador oferece alimento à sua ave os 365 dias do ano.

P&C – Essa luminosidade, que estimula o pássaro, pode ser artificial?

EA – Sim, basta que o criador coloque a ave num ambiente fechado com luz artificial e com um timer artificial.

Quando o timer marcar as 14 horas de exposição do pássaro à luz, ele alcançou o máximo de estimulação da retina. É sempre bom lembrar que esse tempo de exposição é o suficiente.

P&C – Como é o processo deste estimulo de luminosidade?

EA – A quantidade de luz que estimula a retina vai também estimular o cérebro, a hipotálamo e a hipófese, que vai se encarregar de produzir o hormônio estimulante da reprodução, que vai estimular o ovário que finalizando o ciclo, vai produzir ovos. Esse hormônio é o FSH. Depois que a fêmea ovula ela vai ter estrógeno. No macho estimula a produção de testosterona, que faz com que o pássaro cante o máximo possível. Nesta faze ele muda de comportamento completamente, nota-se que ele fica muito mais viril. No período de muda de pena, fica junto aos demais pássaros e quando chega a primavera ele já começa a marcar território.

P&C – Neste período proposto, de 14 horas de exposição à luz, a intensidade da luz tem de ser modificada. Devemos optar pela mais clara ou mais escura?

EA – A intensidade muda sim. Se o dia for menos claro o passarinho pára de fazer o ninho e quando o dia clareia ele volta a fazer o ninho. A lâmpada não precisa ser direcionada à gaiola, mas ela não pode ser em cima da prateleira e nem fazer muita sombra.

P&C – Tem algum tipo de lâmpada especifica para isso?

EA – Existem algumas lâmpadas importadas, mas a luz comum também funciona como estimulação de retina, é bom destacar que qualquer lâmpada estimula. Existem lâmpadas próprias para pássaros que são diferentes devido à quantidade de infravermelho.

P&C – Para uma criação fabricar uma situação artificial, precisa mexer na temperatura também?

EA – Não, a temperatura não influencia, só há necessidade de mexer na luz e nos alimentos. O pássaro sendo exposto 14 horas por dia ele reproduzira em qualquer época do ano. Porem, a fêmea com 6 ou 7 dias costuma parar de esquentar os filhotes, se for no verão com 30 graus não tem problema nenhum, mas se tiver um clima de temperatura baixa, ela não pode ficar fora do ninho. Se isso acontecer, o criador deve colocar o aquecedor de ninho.

P&C – Com o passar do tempo essa exposição pode trazer algum efeito maléfico ao passarinho se ele for exposto á luz durante o ano todo?

EA – Neste caso, haverá sim um efeito nocivo. O organismo chega a um ponto em que ele mesmo corta a sensibilidade ao estimulo, logo, num determinado momento ele não responderá mais. Quando isso acontece, o certo é tirá-lo do ambiente e coloca-lo num ambiente de 8 horas de luz por dia isso fará com que ele mude de pena.

P&C – Esse fotoperiodismo influencia numa boa muda de pena?

EA – Influencia sim, pois uma vez que o passarinho está em cativeiro ele não responde mais aos estímulos da natureza. Vamos mencionar um exemplo. O criador está levando o passarinho para o torneio ele estimula o passarinho todo o dia. Um determinado dia pensa que não precisa mais ir em torneio por já ter alcançado sua meta.

Aí ele viaja com a família, no final de semana, deixando o passarinho numa casa fechada e com pouca luz. Esse período em que a ave passa sozinha em casa é o suficiente para adiantar a muda, pois ele interrompe o estímulo.

Choque de alimentação também faz com que ele entre em muda. O interessante é o passarinho fazer uma muda por ano e bem feita. Se o criador interromper o processo três vezes, ele entra no processo de muda francesa, que é uma muda constante. Isso acontece, a pena irá cair e nascer consecutivamente é difícil de ser corrigido.

P&C – E os passarinhos que mudam mais de uma vez por ano?

EA – Pode ser uma deficiência de luz ou nutricional. Como também pode ser que ele não está tendo um período de 14 horas por dia de exposição à luz.

P&C – Os raios solares são importantes para o passarinho?

EA – São bastante importantes, pois eles ajudam a fixar a vitamina D no organismo do pássaro. As aves que ficam só na sombra precisam de uma suplementação de vitamina D.

P&C – Raio solar que entra no criatório tem o mesmo efeito por não bater diretamente no passarinho?

EA – Tem um efeito sim, pois existe um espectro de luz que reflete no chão. Você não precisa estar no sol para expor ao raio de sol, a pessoa até se queima pela reflexão da luz, mesmo que fique na sombra, embaixo de uma árvore, num dia ensolarado.

No entanto, se o pássaro ficar na sombra absoluta ele precisará de uma suplementação.

P&C – Qual é o procedimento mais adequado a ser utilizado pelo criador disposto a trabalhar com o fotoperiodismo artificial?

EA – Com a fêmea o interessante é que o criador tire 4 posturas se ela for tratar dos filhotes.

P&C – E na possibilidade de a pessoa querer aproveitar os ovos da fêmea e fazer outras chocarem?

EA – Aí eu aconselho no máximo umas seis posturas.

P&C – Tem um tempo ideal para que isso seja feito?

EA - Se o criador ficar tirando os ovos dela e passar para outra fêmea, isso pode ser prejudicial. Mais ou menos umas 6 posturas seria o ideal, tratando o máximo quatro.

A fêmea nasce com todos os ovos que ela vai produzir durante toda a sua vida. Ela não fabrica, pois já nasce com essa quantidade. Se você quer usar os óvulos dela de uma só vez, a vida reprodutiva vai encurtar bastante.

Toda a vez que ela produz um ovo gasta muita energia, por isso necessita de uma alimentação muito balanceada, proteína, aminoácidos e gordura. Uma fêmea de alta reprodução precisa ter uma nutrição equilibrada.

Ao botar, ela gasta muita energia e muito cálcio para produzir o ovo. Por isso, se não tiver um dieta rica em cálcio, provavelmente irá enfraquecer e em conseqüência disso, botará ovos com cascas moles e em alguns casos poderá morrer entalada.

Se o criador tem um criatório grande e manifesta a intenção de produzir o ano inteiro, ele deve ter uma sala para muda, uma sala para criação e uma sala de filhotes, cada um desses ambientes deve ter uma luminosidade adequada.

Aconselho então, que uma fêmea que trate os filhotes tenha quatro posturas, já as que for passar os filhotes para outras fêmeas podem ter 6 posturas, feito isso, elas podem ser colocadas para mudar de pena. O criador não pode prejudicar o instinto materno da fêmea.

P&C – Quem demora mais a responder pelo estimulo?

EA – Normalmente o macho demora um pouco mais para responder ao estimulo de luz. A fêmea não. Ela muda de pena e em seguida já pode ser colocada sob o estimulo de luz para produzir o ovo. Com 14 horas de luz por dia são poucos os pássaros que não reproduzir.

P&C – Quais são as desvantagens desse processo artificial?

EA – O criador deve saber muito bem o que está fazendo para não estragar o pássaro. Caso ele deixe direto, o ano inteiro, com 14 horas de luz, possivelmente irá desregular o pássaro, mas se tiver consciência do que esta fazendo dará tudo certo.

Os criadores também devem saber que os passarinhos mais velhos têm mais dificuldade de responder ao estimulo, isso se trata de uma questão fisiológica, questão natural do processo.

Aí na hora que quiser poderá colocar o passarinho par mudar e na hora que quiser colocá-lo para cantar, também poderá fazer.


Telefone para contato: Edílson (19) 3881-1975


Fonte: Revista Passarinheiros & Cia – ano VI – nº. 38 mai/jun 2006

2 comentários:

  1. essa entrevista foi excelente, completissima. nota 10.ricardo sp

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  2. Entrevista com conteúdo muito rico.
    Parabéns.

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